segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sonho do sol nascente

Ontem à noite eu tive um sonho. Como tantos outros sonhos de tantas outras pessoas, eu vivi a ilusão da vida ideal ao lado da pessoa perfeita. E nesse sonho estamos juntos, como deveria ser. Mãos dadas, olhos nos olhos, e estamos dançando. Ao nosso redor, todos os que compareceram ao mesmo baile, e eles pareciam estar se divertindo tanto quanto nós.

Nossos corações se aceleram, e com eles a música. Não pare, vamos continuar dançando, eu esperei muito por esse momento. O ritmo forte vai nos levando, passo a passo, e conforme percorremos a música chegamos ao outro lado do sentimento. E quando a próxima música começa, até os diabos podem ser anjos quando nos tornamos um só.

Silêncio no salão, barulho na cabeça, samba no peito, e eu traduzo isso nos sussurros que você recebe com um sorriso apaixonado. Está na hora, o momento é perfeito: eu envolvo você com meus braços, e você me envolve com sua perfeição. Fecho os olhos, é agora, posso sentir até seu cheiro. Mas tudo que eu sinto é a luz do sol nascente, e antes que eu me dê conta o sonho se foi, levando você junto.

E agora, o que fazer? Quem sou eu, se não for aquele que estava com você? Não tem graça dançar sozinho, não sei para onde ir se não souber como chegar até você. Já sei, vou fazer esse sonho tornar-se realidade. Vamos dançar até chegar a hora, e vamos parar no tempo, sem nenhum sol para arrancar você dos meus braços. Mas ate lá, vou fechar meus olhos e dormir, para sonhar de novo com você, todos os dias, até o sol nascer novamente.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mais um sonho de beira de praia.

Olhando o sol, eu vi aparecer, como uma boa inspiração, formando uma pintura de beleza única. Cabelo suave feito a primaveira, com seu olhar intenso de verão, um sorriso com um charme e a beleza de outono, e a memória que vai permanecer comigo até o próximo inverno. Olhos nos olhos, contato visual. Nunca acreditei em amor à primeira vista, então virei meus olhos e voltei-me para um segundo olhar, mas ela já não estava mais ali. Para onde foi, por que não estava mais lá?
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Lindo sonho de beira de praia. Pérola morena de olhar safira. Quem é esta rainha da areia, tão imponente e sensual? Desfilando litoral afora, com suas curvas acariciadas pela luz do sol, prende minha atenção com tamanho esplendor. Tanta coisa para pensar, tantas formas para admirá-la, e tenho apenas um segundo antes que você desapareça novamente de meu olhar, e eu desapareça novamente de sua memória.
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Gota cristalina, nada me impediria de ir até você, sentir seu cheiro, provar seu calor, admirar sua pureza, e apreciar a perfeição que só eu posso enxergar, o conforto que só eu posso sentir, e o sonho onde só eu posso me inspirar. Mas eu continuo aqui, estático, parado, a deixar meu sonho passar diante de meus olhos, como o tempo que ninguém segura. Vejo apenas você sair de meu alcance, e lá se foi meu belo novo sonho, estou acordado mais uma vez.
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O agora e o depois chegam praticamente juntos, separados apenas por um mísero segundo, onde tive terceiros, quartos, quintos e quantos outros pensamentos eu poderia ter por toda minha vida. Então entrei de cabeça no "depois", e acordei para a realidade que sequer sentiu minha falta. Novamente estou sozinho, novamente sem ninguém, novamente sem poder sonhar com você. Vi essa mulher linda sair do mar como uma sereia, e divaguei os mais diversos amores com uma desconhecida, que sequer sabe que eu existo. Quanto exagero, o que eu estava pensando? O que deu em mim? Não vou fazer isso novamente..ei, quem é aquela, que anda pela areia em direção ao mar? É mais um amor, uma paixão, um belo sonho de beira de praia.

domingo, 27 de abril de 2008

A Lenda da Menina que não Conseguiu ser Amada.

E ali havia um sonho. Ali mesmo, nos confis da mente do artista inspirado. Era um castelo, quase como qualquer outro, mas com uma diferença: ele voava, flutuando sobre as idéias das pessoas, sempre a manter-se no céu. E nele vivia uma pequena menininha que nunca crescia, seu sorriso e sua alegria a mantinham eternamente jovem. Ela não tinha medo do escuro, pois tinha amigos. Ela não precisava de amigos, pois tinha sua imaginação. Não era tímida, sempre esperava pelas visitas que nunca chegariam, e assim ela vivia, dia após dia, sempre jovem e sorridente, com seu vestido branco, seus longos cabelos loiros que mais pareciam macarrão, e seus olhos azuis da cor do céu.
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Essa era a vida da garotinha: dia após dia a mesma rotina, as mesmas imaginações, a mesma coisa. Ela não tinha ambições, tudo estava bom daquela maneira, não havia razão para mudar. De que importa o mundo lá fora? Até que um dia surgiu gente nova lá embaixo, e como toda criança curiosa, a menininha, inspirada por um dia bonito, resolveu sair de seu castelo e ver o que tinha de tão diferente nos novos vizinhos. Viu o céu e o mar, flores, animais, montanhas, cenários bonitos e ambientes inspiradores. Tudo isso abriu um novo horizonte na mente da menina, e ela não quis mais voltar para onde morava. Lá dentro tudo tornara-se incrivelmente chato e entediante. Resolveu então conhecer sua vizinhança nova, viver entre essas pessoas.
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E a menininha viajou mundo afora. Percorreu todas as montanhas, planícies, mares e ilhas, sempre a sorrir, a espalhar seu carinho e carisma pra todos que estivessem lá. Com isso ela começou a ser conhecida e bem-recebida por todos, onde quer que estivesse. Sabia sempre onde ir, com quem ir e até porque ir. Mas essa utopia não durou muito tempo: quanto mais as pessoas a conheciam, menos ela era lembrada. Tudo que ela passou com eles já não significava mais nada, e pelos motivos mais mesquinhos possíveis. Então parou de ser reconhecida por aqueles que já foram tão hospitaleiros, e isso a deixou triste. A menininha já não era mais uma menininha, seu sorriso tinha deixado seu rosto já não tão infantil. Ela começou a crescer, ficar mais velha, perdendo seu brilho, e tornou-se uma mulher de idade, e não teve nenhuma saída senão voltar para seu castelo voador.
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Os anos foram passando, como a juventude da menina. Hoje em dia ela ainda está lá, naquele castelo acima das idéias de todas as pessoas. Mas ninguém mais os vê, eles estão desaparecendo na triste ironia de estarem deslocados no mundo que deveria pertencer a eles. Ela já não é mais aquela garotinha dos cabelos de macarrão e olhos da cor do céu. É uma idosa, cada vez mais velha, cada vez mais triste, com lágrimas no lugar de sorrisos. E quanto mais as pessoas a abandonam em suas memórias, mais ela, a menininha chamada Bondade, desaparece junto com seu castelo, o Coração.. Ali ainda existe um sonho, mas ele está morrendo. Somente a sua prima, a Esperança, poderá salvar a Bondade, evitando que ela desapareça do mundo. Mas onde está a Esperança?

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Essa não é mais uma carta de amor.

Não vou fazer uma canção de amor. Minha música não carrega o meu sentimento, e nem se carregasse ele expressaria o que você quer ouvir. O choro alegre, que um dia deslizou suave por estas cordas, já não possui o mesmo fôlego daquela voz, que soprava valsas dançantes de uma promessa romântica. Essa dança foi um erro, e eu sempre soube, mas justamente por isso cometi tal erro, e regravaria com prazer cada passo de sua trilha sonora. A banda, assim como o tempo, sempre vai passar, mas estará mais tocando coisas de amor. Não sou o seu poeta.
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Não vou escrever uma poesia de amor. As letras, derramadas no papel por uma tinta de caneta, não formam palavras com a beleza certa. Elas não tem mais um anjo sem asas para levá-las às estrelas. Passa verso, passa estrofe, e não consigo rimar o sentimento (lamento de um sofrimento), outrora tão agradável (agora tão insuportável), e nada mais combina com aquilo que chamei de amor. Não sou o seu pintor.
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Não vou pintar um quadro de amor. As cerdas do pincel entram em perfeita harmonia para negar qualquer sensação de afeto, a delicadeza do arrependimento preenche toda a inspiração da minha mente, e a tela vai sendo tomada pela mistura cromática de decepção, ressentimento, frustração e tinta amarela. A imagem se forma: é uma projeção distorcida de uma memória feliz, e é justamente essa felicidade que falta ser passada no flashback aí presente, ela quem revela a tristeza escondida na frente de tudo. Nada mudou, continuo andando distraído, mas o acaso não vai mais me proteger. Não sou o seu mártir.
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Não vou morrer de amor. Minha vida é valiosa demais, mesmo não valendo tanto quanto o único sentimento indefinível, presente em todos os dicionários. Sim, este sentimento, assim eterno, que não durou muito tempo. Imortal em suas virtudes, e tal qual o diamante, perfura qualquer coisa em seu caminho, se quebra a qualquer impacto, é o que há de mais raro e valioso, e somente os idiotas aceitam a réplica artificial. Você não merece meu diamante. Nunca cumpriu com as promessas que não fez, nunca provou o que não precisava de comprovação. Jamais recebi aquilo que não pedi, e você não se deu ao trabalho de retribuir os benefícios que nunca lhe dei. Como pode perceber, sempre esteve claro o trágico destino dessa jóia. Não vou sacrificar minha vida para ser completo. Não sou seu descontentamento.
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Não vou ser uma decepção de amor. Até queria ser, seria mais fácil assim. Mas não, saio com a alma lavada, estou feliz de ter investido tanto para nada. Adorei cada momento que se foi para sempre, e sonhei com cada parte dessa desilusão. Passeamos em um carrosel de boas lembranças, e quando o carrosel quebrou, todos os sentimentos foram despedaçados. É um crime sem culpados, uma solução temporária para o problema que nunca termina. Não tomarei parte disso, não a procurarei com olhos de tristeza, pois de você só tenho lembranças felizes. Faça o mesmo comigo e esqueça de mim, sempre lembrando de quando estávamos juntos. Não lhe dou mais o direito de me amar, bem como não lhe dou o direito de não me amar. Não sou seu amante, não sou seu artista.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Música Óbvia

Me dá um dó. Um só, natural, assim como veio ao mundo, sem enfeites ou floreios, simples como um sol em um céu sem núvens. Agora vamos fazer uma escala. Não, é muito complicado, pulemos direto para outra nota aleatória, não interessa qual seja, vamos apenas tocá-las repetidamente, uma a uma, dançando uma quadrilha com seus passos monossilábicos, a formar uma frase com suas palávras rítmicas.
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Mas uma música não é apenas isso. Precisa de um tema, de uma letra. Palavras e frases, versadas em um idioma qualquer, tentado transfigurar a imagem de sua parceira de dança, dando rosto à sonorização da poesia musical. Basta uma simples palavra, uma rima banal, um refrão qualquer, e temos o que dizer enquanto os compassos voam melodia afora.
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E assim segue a música. Recém-nascida em sua beleza banal, sua harmonia de rimas simples vai seguindo aquele ritmo circular do compasso previsível, com sua melodia de lindos clichês, seus dós, seus rés, mis e fás. Ah, faz sim, faz um grande sentido. Sua simplicidade não a torna menos bonita. Mesmo sem jogar firulas sonoras no papel, ou cantar malabarismos poéticos em uma cadência de prosa rítmica, ainda é uma poesia, ainda tem sua beleza peculiar. Com seu tema clichê, nasce assim uma música óbvia.
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Junte uma estrofe musical a uma música poética. Temos um céu nublado sem Sol, um sentimento de dar Dó, uma pessoa que esteve Lá, e eu a deixei fora de Si. Um momento em branco, uma cançao em Fá, um sentimento - aquela sensação manjada que todos já conhecem - que faz o coração virar e dar marcha Ré, e eu já não sei onde encaixar esse Mi. Logo, os bemóis e sustenidos já não fazem diferença alguma, esse bequadro que inventei quando transformei esse lugar em uma partitura faz com que meus ouvidos me repassem a musicalidade suave daquela voz, e os pensamentos, em turbilhão, harmonizem-se em minha mente, e meu coração finalmente aprendeu os passos daquela tão famosa dança.
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E você, quer dançar comigo?

domingo, 16 de março de 2008

Vazio.

Não há o que dizer. As palavras vêm à cabeça, mas não saem de lá. O tempo parece não passar, o coração parece não bater, o mundo parece não girar, e eu pareço não amar você. E, no meio de tantos aparecimentos, as idéias desaparecem. E assim fico eu, estático no nervoso do acontecimento, na ansiedade que me traz aquele popular friozinho na barriga. Por que isso foi acontecer logo comigo? Não poderia acontecer com mais alguém? Engraçado como tudo se volta contra nós, sempre de surpresa. Vivemos preparados para isso, mas sempre estaremos desprevenidos quando acontecer.
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Sinto como se não soubesse onde me encaixar. Queria simplesmente sumir, desaparecer, parar o tempo, deixar de existir. Queria poder desfazer esses últimos segundos, que parecem durar horas, arrastando-se com a convicção de uma cobra prestes a atacar sua presa, com o peso de uma avalanche, a atacar minha mente e destruir todas as minhas perseveranças. Não adianta lutar contra isso, é inevitável: todos passarão por isso em algum momento de suas vidas, e sempre seremos pegos desprevenidos, pois estivemos prontos para isso desde crianças.
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Engraçado, sinto-me subitamente mais leve. Todo o nervosismo transformou-se em algo bom, uma felicidade inerente. Agora percebi que ela esteve lá o tempo todo, e o que senti não foi um pavor, uma ansiedade ou um temor qualquer, foi sim a alegria que de tão grande chegou a ficar disforme, me fazendo sentir o medo de não estar à altura de tão alegria, de não ser capaz de arcar com a responsabilidade de retribuir o que desencadeou toda essa situação. Temo, assim como uma criança teme o bicho-papão, não estar à altura do desafio sentimental que você me fez. Mas não importa mais, essa boa sensação preenche o enorme vazio que outrora eu fui, até você dizer que me ama..

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Decepções sob a luz da lua

Luz do luar, ó doce luz do luar. Foi onde eu pedi o que você não pôde me dar, e fiz você prometer aquilo que não pôde cumprir. Pobres coitadas sejam aquelas três palavras, tão usadas em um eterno clichê, tentando manter seu encanto, agora já tão esquecido, e novamente carregadas pelo vento até chegar aos ouvidos que não merecem tais palavras, mais uma vez martirizadas pelo interminável sofrimento de um coração partido. O ambiente agradável, o clima adequado, o momento perfeito...e as palavras erradas (mas na hora pareceu tão certo, tão ideal!).
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Luz do luar, ó doce luz do luar. Inspiração universal para todas as formas de arte. Cantada em pinturas, escrita em músicas, amada em poesias e pintada nos corações que renascem à emoção da descoberta do amor verdadeiro. Se o sol é o pai do universo, a lua é a mãe, tão nova quanto a inspiração poética trazida por um enluarar perfeito, crescente como a sabedoria de um certo órgão composto por bilhões e bilhões de neurônios, cheia de amor para com seus filhos, e até mesmo minguante como o sofrimento de quem sente sua alma estilhaçando-se como um pedaço de porcelana gravitacionado para a destruição. Iluminando nossas noites, consolando os corações partidos, amadrinhando os amores e desamores que acontecem debaixo de um pedaço de pedra mistificado pela simples existência, ela continua girando ao nosso redor, olhando por nós como uma boa mãe faz até mesmo pelos maus filhos que não merecem tal consideração.
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Luz do luar, ó doce luz do luar. Testemunha do meu sofrer. Daria tudo para que não pudesse conhecer esta dor. Queria poder desfazer meu grande e maior erro, apenas para que eu possa cometê-lo novamente, e assim por diante, até que o erro se torne um acerto, o ínfimo seja importante, e eu saiba o que estou fazendo ali parado diante dela, com seus olhos de jóia e seu sorriso de brilho de luz das estrelas. Dê-me sua aprovação eterna para que eu corra para a verdadeira felicidade, renasça à emoção do amor verdadeiro; para que eu possa finalmente dar o que ela me pedir, e cumprir quaisquer coisas que ela me faça prometer. Minha grande e esplendorosa mãe, monte mais uma vez para mim o ambiente agradável, o clima adequado e o momento perfeito...mas, por favor, não me deixe estragar tudo, olhando nos olhos dela e dizendo mais uma vez "eu amo você", não importa o quão perfeito isto nunca deixará de me parecer.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O amor confuso de uma última oração.

Não, você está fazendo errado. Isso, agora com mais calma. Respira fundo, vai com calma. Frases voam pelo ar, lançadas pelo nervoso ofegante da expectativa sentida por duas pessoas em seu primeiro amor confuso, como se fossem dois moribundos rezando sua última oração. Suave, confuso, desajeitado: assim é o primeiro estreitamento de laços de duas pessoas que nunca sentiram o conforto de um grande amor pela primeira vez, nunca tornaram-se um só com seus corações.
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Ah, o amor de verão. Nada mais agradável do que aquela saborosa felicidade da paixão, que será para sempre, ou até o final do verão (o que vier primeiro), tão agradável de se ouvir quanto o pensamento que salta em resposta à bela visão que responde à curiosidade de onde vem aquele cheiro agradável da pessoa que amamos com a convicção de estarmos com a cabeça no lugar de nossos corações. Sim, três meses que valem por uma vida inteira, que representam toda nossa existência. Esperamos a vida toda por aquele momento que nunca imaginamos que aconteceria conosco, fora de um filme enlatado que passa todos os dias.
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Já não há nada mais a fazer, vamos aproveitar esse lindo dia, essa bela paisagem, esse agradável ambiente, e vamos passar o tempo inteiro enclausurados em um lugar fechado, longe de tudo, onde você será minha visão de paisagem, eu serei seu melhor ambiente, e nosso dia será um só. Sim, vamos esperar o ano inteiro longe do mundo para nos distanciarmos ainda mais, querendo fazer parte dele, juntos, num imenso paradoxo biológico de paixão. Seremos verborrágicos quanto tais descrições, mas sem trocar uma palavra. Racionalizaremos um sentimento que nos faz parar de pensar. Vamos até contrariar as leis da física, e ocupar o mesmo lugar no espaço, e de repente nada mais fará sentido.
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É isso. Acabou. O tempo que gastei refletindo se foi. Toda a intimidade se foi. Aquele eterno amor temporário expirou sua existência, e agora voltaremos para nossas vidas distantes e esqueceremos tudo, até o final dela. Num último momento, na última hora, o êxtase maior salpicará nossas mentes e temperará nossos últimos sonhos, e toda nossa vida passará em um segundo, diante de nossos olhos fechados pela iminência do fim. Tentamos rezar juntos, mas tal qual o amor confuso de dois jovens em uma noite de verão, nossa última oração não foi como queríamos, e nossa vida se acabou num piscar de olhos, como a paixão jovem que acontece pela primeira vez, todo primeiro dia do verão.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Meia-noite

Batem os sinos da meia-noite. Mais um dia se foi. O planeta deu mais uma de suas tão intermináveis voltas. Some essa a milhões, bilhões e trilhões de tantas outras voltas, dadas sobre o mesmo eixo ou sobre o nosso indispensável sol. Um novo dia começa, para cada criatura consciente no planeta. Elas mesmas, todas elas, que parecem formiguinhas tão pequenas quando olhamos lá do alto.
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Ah, chegou a manhã. Oito horas depois do recomeço que sempre continua, o sol, centro das atenções universais, tem seu esplendor finalmente reconhecido. Mesmo que boa parte de seu público repudie e odeie sua presença, ele não liga, pois sabe que todos sentirão sua falta se ele desaparecer. E como nós, formigas tão pequenas vistas do alto, tememos o dia em que ele finalmente não dara o ar de sua presença em tão planetária ribalta.
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Bate o sino do meio-dia. A beleza do (re)nascer do sol foi deixada para trás, não tem graça. Nesse momento todos nós, auto-declaradas imagens e semelhanças de um suposto ser supremo e inalcançável, não somos nada além de inferiores ante a tão imponente bola de luz estampada em nossos céus, a aquecer nossos corpos, corações e mentes. O tempo passa, e lá está ele, marcando ponto como um trabalhador honesto que gosta da recompensa a qual não pensa.
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O expediente daquela estrela outrora venerada como presença divina pelos antigos está terminando, já estamos no meio da tarde. Nós, os poços de ego, aqueles que querem ser divinos e humildes ao mesmo tempo, a contradição una do universo, sentimos tanta falta de nossa querida lâmpada sem perceber, pois voltamos para nossas casas, fadigados, sonolentos, cansados, mergulhados em rotinas demodês e pífias. Sentimos, pois, a necessidade de dormir antes que ele chegue de novo. A pseudo-responsabilidade com o trabalho é uma mera desculpa, queremos estar apresentáveis quando o mundo começar de novo, como faz todos os dias, e quando nosso astro principal aparecer na grande ribalta que chamamos de horizonte. E fingiremos não gostar dele, reclamando do que virá durante o resto do dia.
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Ah, a noite é uma criança. Mesmo para os não-conformistas, ainda há tempo para diversão. Mesmo que o tempo não esteja a favor, ele ainda está lá, e isso é o que importa. Para esses, que me diriam que não se importam com a rotina do sol, eu digo que são os que mais se importam, afinal, voltarão para suas casas quando ele aparecer lá de novo, simbolizando o começo de um novo dia, que na verdade é uma reles continuação do antigo, e liga todo nosso tempo ao começo do nada. O começo antes do nosso começo. Antes do começo de nossos pais. Enfim, o começo antes de todo o começo.
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Acabou o tempo. Acabou o dia. Acabou a motivação. Acabou a existência. Em alguns momentos, todo esse longo e arrastado dia terminará, e algo completamente novo começará novamente, como faz desde sempre. Aquele começo, que em um segundo invalida bilhares de anos, apenas pela mera convicção de que um pedaço de papel, que chamamos de calendário, rege nossos tempos, nossas vidas e mesmo nossas mortas. Em alguns segundos, 10, tudo isso não valerá mais nada, 9, pois um novo começo se aproxima, 8, e limpará todas as nossas manchas existenciais, 7, levando consigo toda nossa sujeira, 6, assim como o chuveiro leva embora toda a gordura ensebada em nós, 5, e assim vislumbramos, 4, um novo futuro sem passado, 3, porque ontem é ontem, 2, e o passado não importa, 1, apenas o que está por vir nos interessa.
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E batem os sinos da meia-noite...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O grande mal da humanidade

Logo quando os homens passaram a andar sobre duas pernas, já surgiu o primeiro problema: eles se acharam dominadores do mundo. Quando os homens começaram a se comunicar, já começaram a se xingar e discutir possíveis soluções para uma utópica e inalcançável paz mundial. Passa o tempo, e na idade média o grande mal era personificado por aqueles que atentavam contra a (snif) igreja. Nos tempos modernos ele era o atraso tecnológico, e hoje em dia ele se manifesta na forma da violência, e para alguns demagogos, na forma do armamento
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Eu sei qual o verdadeiro grande mal. O problema da humanidade são os próprios humanos. Não é a arma, o entorpecente, o que atenta contra a religião, ou o que cria uma banda de pagode, mas sim quem está cometendo tais atos. Mesmo uma pessoa mal-informada, ao procurar tal coisa, SABE que aquilo trará mais consequências ruins do que boas, mas a mundana sensação de que naquele momento ele terá uma sensação boa o faz esquecer das consequências posteriores. E, na maioria das vezes, tal acesso a coisas danosas vem atrelado ao desejo de causar mal a alguém.
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O ser humano é um ser de mente fraca. Todos estamos fadados a, em algum momento de nossas vidas, ceder para algum impulso de idiotice e cometer o maior ato de imbecilidade, daqueles que nos fará motivo de piada para todos, mas em nossos corações sabemos que aquilo nos fará heróis - ou mártires - de nossa causa estúpida. E mesmo que não saibamos disso, faremos do mesmo jeito. Se vivermos em algum lugar perfeito, logo faremos algo para quebrar a harmonia do local. Se estamos em um lugar repugnante, tentaremos purificar o lugar de acordo com nossas concepções pré-construídas.
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A utopia é um objetivo inalcançável. A solução para os problemas da humanidade é simplesmente por fim a si mesma, o que também parece ser a culminação de todos os problemas. Paradoxalmente irônico. Onde está o Deus Católico para nos tranquilizar e nos abster de nossas vidas agora?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Carta ao meu futuro amor.

Ei, você. Você mesma. Ainda não me conhece, nem sabe quem sou, mas como eu em relação a você, sabe que sou a pessoa ideal pra você, assim como sei que você é perfeita para mim. Como? Ora, não preciso responder, quando você me conhecer vai saber como penso, e o que a fará perfeita para mim é justamente você me aceitar e me amar como sou, porque serei perfeito para você, pois a aceitarei e amarei como você é (será), e você será perfeita para mim...
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Ouso dizer que amarei você, afinal, será por isso que ficaremos juntos. Ouso dizer que desejarei você, pois será isso que virá como consequência do amor que teremos. Ouso dizer que você será linda, pelo menos para mim, mesmo que outros venham a partilhar de minha opinião. Ouso dizer também que iremos ficar juntos para sempre, pois eu irei escolher você dentre tantas, e você me escolherá dentre tantos.
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Nada me agradará mais do que sentir o calor do abraço seu que ainda não recebi, olhar nos seus olhos que ainda não vi, beijar os lábios que ainda não senti, tocar seus cabelos que não sei ainda como são (mas sei que você terá, mulher careca me dá medo, e você saberá disso). Nada me fará mais feliz do que fazer você feliz, mesmo que eu ainda não saiba como. Não se preocupe, quando nos conhecermos eu contarei a você o que me faz feliz, para que você assim o faça, não para me agradar, mas porque você gostará de receber meu sorriso que nunca viu, e meu agradecimento que nunca recebeu.
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Moraremos ali. Ali mesmo, naquele lugar daquela direção, perto dali, onde aquilo aconteceu aquele dia. Teremos talvez alguns filhos, cujo nome não decidimos ainda, pois não nos conhecemos. Nos casaremos naquela igreja, com todos os convidados, e esses sim são pessoas que conhecemos desde antes de nos conhecer.
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Brigaremos por nossa vida. Brigaremos com nossa vida. Brigaremos pela nossa vida. Brigaremos, mas com a certeza que nos amamos e nada destruirá esse amor que ainda nem nasceu, mas quando ele existir será a coisa mais forte que teremos juntos, e anunciaremos isso aos quatro ventos, mesmo que eu vá contra minhas convicções, porque sei que você fará o mesmo por mim. Faremos sacrifícios um pelo outro, mesmo que sequer saibamos nossos próprios nomes.
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A você, amor desconhecido, eu amarei você um dia.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Primeiro.

Primeiro - Ordinal mais extremista da existência. Geralmente associado a coisas incrivelmente boas, ocasionalmente associado a ditados conformistas ("Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida"). Imagino que seja o conceito mais adaptável que existe, é quase como a morte: inevitável. Para tudo em sua vida, sempre haverá a participação do primeiro. Não podemos pular, passar direto para o segundo? Nem "Deus", o suposto onipotente, resposta para todas as perguntas que não sabemos responder, conseguiu escapar: teve seu primeiro dia, primeira atitude, primeiro ser vivo.

Primeiro - O sonho de consumo acadêmico. Todo bem-sucedido quer ser o primeiro da sala, o primeiro colocado, o primeiro na ordem de notas. Só esquecem que ser o primeiro não significa ser o melhor no que faz (alguém lembra do primeiro ser vivo? Eu não). O ideal é ser o primeiro em alguma coisa que ninguém ainda criou, mas os bons alunos, chafurdando em seus livros científicos, sonhando em ser o galã de suas mamães e professoras sem vida social, geralmente esquecem desse injustiçado objetivo. Pobre conceito da invenção, perdido nos confins das mentes que brilham.

Primeiro - Numeral ordinal, um primo do um.

"Os último serão os primeiros" - desculpa de perdedor.