quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Decepções sob a luz da lua

Luz do luar, ó doce luz do luar. Foi onde eu pedi o que você não pôde me dar, e fiz você prometer aquilo que não pôde cumprir. Pobres coitadas sejam aquelas três palavras, tão usadas em um eterno clichê, tentando manter seu encanto, agora já tão esquecido, e novamente carregadas pelo vento até chegar aos ouvidos que não merecem tais palavras, mais uma vez martirizadas pelo interminável sofrimento de um coração partido. O ambiente agradável, o clima adequado, o momento perfeito...e as palavras erradas (mas na hora pareceu tão certo, tão ideal!).
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Luz do luar, ó doce luz do luar. Inspiração universal para todas as formas de arte. Cantada em pinturas, escrita em músicas, amada em poesias e pintada nos corações que renascem à emoção da descoberta do amor verdadeiro. Se o sol é o pai do universo, a lua é a mãe, tão nova quanto a inspiração poética trazida por um enluarar perfeito, crescente como a sabedoria de um certo órgão composto por bilhões e bilhões de neurônios, cheia de amor para com seus filhos, e até mesmo minguante como o sofrimento de quem sente sua alma estilhaçando-se como um pedaço de porcelana gravitacionado para a destruição. Iluminando nossas noites, consolando os corações partidos, amadrinhando os amores e desamores que acontecem debaixo de um pedaço de pedra mistificado pela simples existência, ela continua girando ao nosso redor, olhando por nós como uma boa mãe faz até mesmo pelos maus filhos que não merecem tal consideração.
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Luz do luar, ó doce luz do luar. Testemunha do meu sofrer. Daria tudo para que não pudesse conhecer esta dor. Queria poder desfazer meu grande e maior erro, apenas para que eu possa cometê-lo novamente, e assim por diante, até que o erro se torne um acerto, o ínfimo seja importante, e eu saiba o que estou fazendo ali parado diante dela, com seus olhos de jóia e seu sorriso de brilho de luz das estrelas. Dê-me sua aprovação eterna para que eu corra para a verdadeira felicidade, renasça à emoção do amor verdadeiro; para que eu possa finalmente dar o que ela me pedir, e cumprir quaisquer coisas que ela me faça prometer. Minha grande e esplendorosa mãe, monte mais uma vez para mim o ambiente agradável, o clima adequado e o momento perfeito...mas, por favor, não me deixe estragar tudo, olhando nos olhos dela e dizendo mais uma vez "eu amo você", não importa o quão perfeito isto nunca deixará de me parecer.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O amor confuso de uma última oração.

Não, você está fazendo errado. Isso, agora com mais calma. Respira fundo, vai com calma. Frases voam pelo ar, lançadas pelo nervoso ofegante da expectativa sentida por duas pessoas em seu primeiro amor confuso, como se fossem dois moribundos rezando sua última oração. Suave, confuso, desajeitado: assim é o primeiro estreitamento de laços de duas pessoas que nunca sentiram o conforto de um grande amor pela primeira vez, nunca tornaram-se um só com seus corações.
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Ah, o amor de verão. Nada mais agradável do que aquela saborosa felicidade da paixão, que será para sempre, ou até o final do verão (o que vier primeiro), tão agradável de se ouvir quanto o pensamento que salta em resposta à bela visão que responde à curiosidade de onde vem aquele cheiro agradável da pessoa que amamos com a convicção de estarmos com a cabeça no lugar de nossos corações. Sim, três meses que valem por uma vida inteira, que representam toda nossa existência. Esperamos a vida toda por aquele momento que nunca imaginamos que aconteceria conosco, fora de um filme enlatado que passa todos os dias.
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Já não há nada mais a fazer, vamos aproveitar esse lindo dia, essa bela paisagem, esse agradável ambiente, e vamos passar o tempo inteiro enclausurados em um lugar fechado, longe de tudo, onde você será minha visão de paisagem, eu serei seu melhor ambiente, e nosso dia será um só. Sim, vamos esperar o ano inteiro longe do mundo para nos distanciarmos ainda mais, querendo fazer parte dele, juntos, num imenso paradoxo biológico de paixão. Seremos verborrágicos quanto tais descrições, mas sem trocar uma palavra. Racionalizaremos um sentimento que nos faz parar de pensar. Vamos até contrariar as leis da física, e ocupar o mesmo lugar no espaço, e de repente nada mais fará sentido.
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É isso. Acabou. O tempo que gastei refletindo se foi. Toda a intimidade se foi. Aquele eterno amor temporário expirou sua existência, e agora voltaremos para nossas vidas distantes e esqueceremos tudo, até o final dela. Num último momento, na última hora, o êxtase maior salpicará nossas mentes e temperará nossos últimos sonhos, e toda nossa vida passará em um segundo, diante de nossos olhos fechados pela iminência do fim. Tentamos rezar juntos, mas tal qual o amor confuso de dois jovens em uma noite de verão, nossa última oração não foi como queríamos, e nossa vida se acabou num piscar de olhos, como a paixão jovem que acontece pela primeira vez, todo primeiro dia do verão.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Meia-noite

Batem os sinos da meia-noite. Mais um dia se foi. O planeta deu mais uma de suas tão intermináveis voltas. Some essa a milhões, bilhões e trilhões de tantas outras voltas, dadas sobre o mesmo eixo ou sobre o nosso indispensável sol. Um novo dia começa, para cada criatura consciente no planeta. Elas mesmas, todas elas, que parecem formiguinhas tão pequenas quando olhamos lá do alto.
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Ah, chegou a manhã. Oito horas depois do recomeço que sempre continua, o sol, centro das atenções universais, tem seu esplendor finalmente reconhecido. Mesmo que boa parte de seu público repudie e odeie sua presença, ele não liga, pois sabe que todos sentirão sua falta se ele desaparecer. E como nós, formigas tão pequenas vistas do alto, tememos o dia em que ele finalmente não dara o ar de sua presença em tão planetária ribalta.
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Bate o sino do meio-dia. A beleza do (re)nascer do sol foi deixada para trás, não tem graça. Nesse momento todos nós, auto-declaradas imagens e semelhanças de um suposto ser supremo e inalcançável, não somos nada além de inferiores ante a tão imponente bola de luz estampada em nossos céus, a aquecer nossos corpos, corações e mentes. O tempo passa, e lá está ele, marcando ponto como um trabalhador honesto que gosta da recompensa a qual não pensa.
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O expediente daquela estrela outrora venerada como presença divina pelos antigos está terminando, já estamos no meio da tarde. Nós, os poços de ego, aqueles que querem ser divinos e humildes ao mesmo tempo, a contradição una do universo, sentimos tanta falta de nossa querida lâmpada sem perceber, pois voltamos para nossas casas, fadigados, sonolentos, cansados, mergulhados em rotinas demodês e pífias. Sentimos, pois, a necessidade de dormir antes que ele chegue de novo. A pseudo-responsabilidade com o trabalho é uma mera desculpa, queremos estar apresentáveis quando o mundo começar de novo, como faz todos os dias, e quando nosso astro principal aparecer na grande ribalta que chamamos de horizonte. E fingiremos não gostar dele, reclamando do que virá durante o resto do dia.
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Ah, a noite é uma criança. Mesmo para os não-conformistas, ainda há tempo para diversão. Mesmo que o tempo não esteja a favor, ele ainda está lá, e isso é o que importa. Para esses, que me diriam que não se importam com a rotina do sol, eu digo que são os que mais se importam, afinal, voltarão para suas casas quando ele aparecer lá de novo, simbolizando o começo de um novo dia, que na verdade é uma reles continuação do antigo, e liga todo nosso tempo ao começo do nada. O começo antes do nosso começo. Antes do começo de nossos pais. Enfim, o começo antes de todo o começo.
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Acabou o tempo. Acabou o dia. Acabou a motivação. Acabou a existência. Em alguns momentos, todo esse longo e arrastado dia terminará, e algo completamente novo começará novamente, como faz desde sempre. Aquele começo, que em um segundo invalida bilhares de anos, apenas pela mera convicção de que um pedaço de papel, que chamamos de calendário, rege nossos tempos, nossas vidas e mesmo nossas mortas. Em alguns segundos, 10, tudo isso não valerá mais nada, 9, pois um novo começo se aproxima, 8, e limpará todas as nossas manchas existenciais, 7, levando consigo toda nossa sujeira, 6, assim como o chuveiro leva embora toda a gordura ensebada em nós, 5, e assim vislumbramos, 4, um novo futuro sem passado, 3, porque ontem é ontem, 2, e o passado não importa, 1, apenas o que está por vir nos interessa.
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E batem os sinos da meia-noite...