sexta-feira, 28 de março de 2008

Música Óbvia

Me dá um dó. Um só, natural, assim como veio ao mundo, sem enfeites ou floreios, simples como um sol em um céu sem núvens. Agora vamos fazer uma escala. Não, é muito complicado, pulemos direto para outra nota aleatória, não interessa qual seja, vamos apenas tocá-las repetidamente, uma a uma, dançando uma quadrilha com seus passos monossilábicos, a formar uma frase com suas palávras rítmicas.
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Mas uma música não é apenas isso. Precisa de um tema, de uma letra. Palavras e frases, versadas em um idioma qualquer, tentado transfigurar a imagem de sua parceira de dança, dando rosto à sonorização da poesia musical. Basta uma simples palavra, uma rima banal, um refrão qualquer, e temos o que dizer enquanto os compassos voam melodia afora.
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E assim segue a música. Recém-nascida em sua beleza banal, sua harmonia de rimas simples vai seguindo aquele ritmo circular do compasso previsível, com sua melodia de lindos clichês, seus dós, seus rés, mis e fás. Ah, faz sim, faz um grande sentido. Sua simplicidade não a torna menos bonita. Mesmo sem jogar firulas sonoras no papel, ou cantar malabarismos poéticos em uma cadência de prosa rítmica, ainda é uma poesia, ainda tem sua beleza peculiar. Com seu tema clichê, nasce assim uma música óbvia.
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Junte uma estrofe musical a uma música poética. Temos um céu nublado sem Sol, um sentimento de dar Dó, uma pessoa que esteve Lá, e eu a deixei fora de Si. Um momento em branco, uma cançao em Fá, um sentimento - aquela sensação manjada que todos já conhecem - que faz o coração virar e dar marcha Ré, e eu já não sei onde encaixar esse Mi. Logo, os bemóis e sustenidos já não fazem diferença alguma, esse bequadro que inventei quando transformei esse lugar em uma partitura faz com que meus ouvidos me repassem a musicalidade suave daquela voz, e os pensamentos, em turbilhão, harmonizem-se em minha mente, e meu coração finalmente aprendeu os passos daquela tão famosa dança.
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E você, quer dançar comigo?

domingo, 16 de março de 2008

Vazio.

Não há o que dizer. As palavras vêm à cabeça, mas não saem de lá. O tempo parece não passar, o coração parece não bater, o mundo parece não girar, e eu pareço não amar você. E, no meio de tantos aparecimentos, as idéias desaparecem. E assim fico eu, estático no nervoso do acontecimento, na ansiedade que me traz aquele popular friozinho na barriga. Por que isso foi acontecer logo comigo? Não poderia acontecer com mais alguém? Engraçado como tudo se volta contra nós, sempre de surpresa. Vivemos preparados para isso, mas sempre estaremos desprevenidos quando acontecer.
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Sinto como se não soubesse onde me encaixar. Queria simplesmente sumir, desaparecer, parar o tempo, deixar de existir. Queria poder desfazer esses últimos segundos, que parecem durar horas, arrastando-se com a convicção de uma cobra prestes a atacar sua presa, com o peso de uma avalanche, a atacar minha mente e destruir todas as minhas perseveranças. Não adianta lutar contra isso, é inevitável: todos passarão por isso em algum momento de suas vidas, e sempre seremos pegos desprevenidos, pois estivemos prontos para isso desde crianças.
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Engraçado, sinto-me subitamente mais leve. Todo o nervosismo transformou-se em algo bom, uma felicidade inerente. Agora percebi que ela esteve lá o tempo todo, e o que senti não foi um pavor, uma ansiedade ou um temor qualquer, foi sim a alegria que de tão grande chegou a ficar disforme, me fazendo sentir o medo de não estar à altura de tão alegria, de não ser capaz de arcar com a responsabilidade de retribuir o que desencadeou toda essa situação. Temo, assim como uma criança teme o bicho-papão, não estar à altura do desafio sentimental que você me fez. Mas não importa mais, essa boa sensação preenche o enorme vazio que outrora eu fui, até você dizer que me ama..