domingo, 27 de abril de 2008

A Lenda da Menina que não Conseguiu ser Amada.

E ali havia um sonho. Ali mesmo, nos confis da mente do artista inspirado. Era um castelo, quase como qualquer outro, mas com uma diferença: ele voava, flutuando sobre as idéias das pessoas, sempre a manter-se no céu. E nele vivia uma pequena menininha que nunca crescia, seu sorriso e sua alegria a mantinham eternamente jovem. Ela não tinha medo do escuro, pois tinha amigos. Ela não precisava de amigos, pois tinha sua imaginação. Não era tímida, sempre esperava pelas visitas que nunca chegariam, e assim ela vivia, dia após dia, sempre jovem e sorridente, com seu vestido branco, seus longos cabelos loiros que mais pareciam macarrão, e seus olhos azuis da cor do céu.
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Essa era a vida da garotinha: dia após dia a mesma rotina, as mesmas imaginações, a mesma coisa. Ela não tinha ambições, tudo estava bom daquela maneira, não havia razão para mudar. De que importa o mundo lá fora? Até que um dia surgiu gente nova lá embaixo, e como toda criança curiosa, a menininha, inspirada por um dia bonito, resolveu sair de seu castelo e ver o que tinha de tão diferente nos novos vizinhos. Viu o céu e o mar, flores, animais, montanhas, cenários bonitos e ambientes inspiradores. Tudo isso abriu um novo horizonte na mente da menina, e ela não quis mais voltar para onde morava. Lá dentro tudo tornara-se incrivelmente chato e entediante. Resolveu então conhecer sua vizinhança nova, viver entre essas pessoas.
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E a menininha viajou mundo afora. Percorreu todas as montanhas, planícies, mares e ilhas, sempre a sorrir, a espalhar seu carinho e carisma pra todos que estivessem lá. Com isso ela começou a ser conhecida e bem-recebida por todos, onde quer que estivesse. Sabia sempre onde ir, com quem ir e até porque ir. Mas essa utopia não durou muito tempo: quanto mais as pessoas a conheciam, menos ela era lembrada. Tudo que ela passou com eles já não significava mais nada, e pelos motivos mais mesquinhos possíveis. Então parou de ser reconhecida por aqueles que já foram tão hospitaleiros, e isso a deixou triste. A menininha já não era mais uma menininha, seu sorriso tinha deixado seu rosto já não tão infantil. Ela começou a crescer, ficar mais velha, perdendo seu brilho, e tornou-se uma mulher de idade, e não teve nenhuma saída senão voltar para seu castelo voador.
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Os anos foram passando, como a juventude da menina. Hoje em dia ela ainda está lá, naquele castelo acima das idéias de todas as pessoas. Mas ninguém mais os vê, eles estão desaparecendo na triste ironia de estarem deslocados no mundo que deveria pertencer a eles. Ela já não é mais aquela garotinha dos cabelos de macarrão e olhos da cor do céu. É uma idosa, cada vez mais velha, cada vez mais triste, com lágrimas no lugar de sorrisos. E quanto mais as pessoas a abandonam em suas memórias, mais ela, a menininha chamada Bondade, desaparece junto com seu castelo, o Coração.. Ali ainda existe um sonho, mas ele está morrendo. Somente a sua prima, a Esperança, poderá salvar a Bondade, evitando que ela desapareça do mundo. Mas onde está a Esperança?

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Essa não é mais uma carta de amor.

Não vou fazer uma canção de amor. Minha música não carrega o meu sentimento, e nem se carregasse ele expressaria o que você quer ouvir. O choro alegre, que um dia deslizou suave por estas cordas, já não possui o mesmo fôlego daquela voz, que soprava valsas dançantes de uma promessa romântica. Essa dança foi um erro, e eu sempre soube, mas justamente por isso cometi tal erro, e regravaria com prazer cada passo de sua trilha sonora. A banda, assim como o tempo, sempre vai passar, mas estará mais tocando coisas de amor. Não sou o seu poeta.
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Não vou escrever uma poesia de amor. As letras, derramadas no papel por uma tinta de caneta, não formam palavras com a beleza certa. Elas não tem mais um anjo sem asas para levá-las às estrelas. Passa verso, passa estrofe, e não consigo rimar o sentimento (lamento de um sofrimento), outrora tão agradável (agora tão insuportável), e nada mais combina com aquilo que chamei de amor. Não sou o seu pintor.
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Não vou pintar um quadro de amor. As cerdas do pincel entram em perfeita harmonia para negar qualquer sensação de afeto, a delicadeza do arrependimento preenche toda a inspiração da minha mente, e a tela vai sendo tomada pela mistura cromática de decepção, ressentimento, frustração e tinta amarela. A imagem se forma: é uma projeção distorcida de uma memória feliz, e é justamente essa felicidade que falta ser passada no flashback aí presente, ela quem revela a tristeza escondida na frente de tudo. Nada mudou, continuo andando distraído, mas o acaso não vai mais me proteger. Não sou o seu mártir.
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Não vou morrer de amor. Minha vida é valiosa demais, mesmo não valendo tanto quanto o único sentimento indefinível, presente em todos os dicionários. Sim, este sentimento, assim eterno, que não durou muito tempo. Imortal em suas virtudes, e tal qual o diamante, perfura qualquer coisa em seu caminho, se quebra a qualquer impacto, é o que há de mais raro e valioso, e somente os idiotas aceitam a réplica artificial. Você não merece meu diamante. Nunca cumpriu com as promessas que não fez, nunca provou o que não precisava de comprovação. Jamais recebi aquilo que não pedi, e você não se deu ao trabalho de retribuir os benefícios que nunca lhe dei. Como pode perceber, sempre esteve claro o trágico destino dessa jóia. Não vou sacrificar minha vida para ser completo. Não sou seu descontentamento.
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Não vou ser uma decepção de amor. Até queria ser, seria mais fácil assim. Mas não, saio com a alma lavada, estou feliz de ter investido tanto para nada. Adorei cada momento que se foi para sempre, e sonhei com cada parte dessa desilusão. Passeamos em um carrosel de boas lembranças, e quando o carrosel quebrou, todos os sentimentos foram despedaçados. É um crime sem culpados, uma solução temporária para o problema que nunca termina. Não tomarei parte disso, não a procurarei com olhos de tristeza, pois de você só tenho lembranças felizes. Faça o mesmo comigo e esqueça de mim, sempre lembrando de quando estávamos juntos. Não lhe dou mais o direito de me amar, bem como não lhe dou o direito de não me amar. Não sou seu amante, não sou seu artista.